O Dao De Jing (道德经, Dào Dé Jīng) começa com um aviso: "O Dao que pode ser falado não é o verdadeiro Dao" (道可道,非常道, Dào kě dào, fēi cháng Dào). Isso coloca os poetas taoistas em uma posição desconfortável desde o começo. Eles tentam escrever sobre algo que, por definição, não pode ser escrito.
Essa tarefa impossível produziu algumas das poesias mais extraordinárias da literatura chinesa. Não porque os poetas resolveram o paradoxo — eles não o fizeram — mas porque a tentativa de expressar o inexpressável os forçou a encontrar novas formas de usar a linguagem. A poesia taoista em seu melhor momento não descreve o Dao. Ela o performa. O poema torna-se um pequeno ato de wuwei (无为, wúwéi, "não-ação") — algo que acontece naturalmente, sem forçar, assim como a água encontra seu caminho morro abaixo.
A Fundação Filosófica
O taoismo como tradição filosófica começa com dois textos: o Dao De Jing (atribuído a Laozi, 老子, Lǎozǐ, provavelmente compilado em torno do século IV a.C.) e o Zhuangzi (庄子, Zhuāngzǐ, atribuído a Zhuang Zhou, também do século IV a.C.). Esses textos não são poesia no sentido estrito, mas são tão literários, repletos de imagens e com ritmo tão envolvente que funcionam como poesia — e estabeleceram o vocabulário e visão de mundo que os poetas taoistas utilizariam pelos próximos dois milênios.
Conceitos-chave:
| Conceito | Chinês | Pinyin | Significado | Aplicação Poética | |----------------|--------|---------|---------------------------------------|--------------------------------------------| | O Caminho | 道 | Dào | O padrão subjacente da realidade | A coisa inominável a que os poemas apontam | | Não-ação | 无为 | wúwéi | Agir sem forçar; ação sem esforço | Poemas que parecem se escrever sozinhos | | Naturalidade | 自然 | zìrán | Espontaneidade; ser-o-por-si-mesmo | Linguagem simples, imagens naturais | | Vazio | 虚 | xū | Vazio produtivo; o vazio útil | Silêncio e espaço dentro dos poemas | | Retorno | 归 | guī | Voltar à fonte | Poemas sobre ir para casa, retornar à natureza | | Simplicidade | 朴 | pǔ | O bloco não esculpido; simplicidade original | Linguagem direta, rejeição de ornamentos |O Zhuangzi é particularmente importante para a poesia porque está cheio de histórias, imagens e experimentos mentais que os poetas posteriores reutilizaram incessantemente. O sonho da borboleta (蝴蝶梦, húdié mèng) — sou eu, Zhuang Zhou, sonhando que sou uma borboleta, ou uma borboleta sonhando que sou Zhuang Zhou? — aparece na poesia chinesa por dois mil anos. A árvore inútil (无用之木, wúyòng zhī mù) que sobrevive porque ninguém quer cortá-la. O cozinheiro que esculpe o boi com tanta habilidade que sua faca nunca fica cega. Essas imagens se tornaram o vocabulário compartilhado da poética taoista.
Tao Yuanming: O Primeiro Grande Poeta Taoista
Tao Yuanming (陶渊明, Táo Yuānmíng, 365–427 d.C.) é o poeta que estabeleceu o modelo para a poesia taoista na China. Ele era um funcionário menor que abandonou seu cargo no governo — declarando famoso que não "dobraria a cintura por cinco alqueires de arroz" (不为五斗米折腰, bù wèi wǔ dǒu mǐ zhé yāo) — e se retirou para cultivar a terra no campo.
Seus "Poemas de Beber" (饮酒, Yǐn Jiǔ) incluem o que talvez seja o poema taoista mais citado na cultura chinesa...
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