Ezra Pound e a Poesia Chinesa: Erros Bonitos

Em 1913, Mary Fenollosa entregou a Ezra Pound uma pilha de cadernos de seu falecido marido. Ernest Fenollosa (1853–1908) havia sido professor americano de filosofia em Tóquio, onde estudou poesia chinesa com acadêmicos japoneses. Seus cadernos continham traduções rudimentares, glosas caracter por caracter, e anotações sobre cerca de 150 poemas chineses.

Pound não conseguia ler chinês. Ele não conseguia ler japonês. Ele não tinha formação em línguas ou literatura do Leste Asiático. Ele pegou os cadernos e, em 1915, publicou Cathay, um volume magro de quatorze poemas que T.S. Eliot mais tarde chamou de "a invenção da poesia chinesa para o nosso tempo".

Eliot não estava errado. Cathay mudou a poesia em língua inglesa. Também apresentou muitos erros sobre a poesia chinesa. A questão interessante é se esses dois fatos estão relacionados — se a ignorância de Pound era, paradoxalmente, parte do que tornou suas traduções tão poderosas.

O Que Pound Teve Para Trabalhar

Os cadernos de Fenollosa não eram traduções em nenhum sentido convencional. Eram notas de estudo — o tipo de material que um aluno produz ao trabalhar com textos sob a orientação de um professor. Para cada poema, Fenollosa tinha:

1. Os caracteres chineses 2. Pronúncias japonesas (já que estudou com acadêmicos japoneses) 3. Glosas em inglês de personagem por personagem 4. Notas breves sobre significado e contexto

O que Fenollosa não forneceu: - Gramática precisa - Informação tonal - Contexto histórico - A diferença entre leituras japonesas e chinesas - Qualquer noção das estruturas formais (padrões tonais, paralelismo, rima) que fazem a poesia chinesa funcionar como poesia

Pound pegou esses materiais incompletos e criou poemas a partir deles. Ele fez isso aplicando seus próprios princípios poéticos — Imagismo, concretude, eliminação de palavras desnecessárias — aos dados brutos de Fenollosa. O resultado foi algo novo: não era poesia chinesa, não era poesia inglesa, mas uma terceira coisa que se baseava em ambas.

A Obra-Prima: "A Esposa do Mercador de Rios: Uma Carta"

A tradução mais celebrada de Pound é sua versão do "长干行" (Cháng Gān Xíng) de Li Bai (李白), que ele intitulou de "A Esposa do Mercador de Rios: Uma Carta":

> Enquanto meu cabelo ainda era cortado reto na frente da minha testa > Eu brincava no portão da frente, colhendo flores. > Você veio em stilts de bambu, fazendo o papel de cavalo, > Você andou ao redor do meu assento, brincando com ameixas azuis. > E continuamos vivendo na aldeia de Chōkan: > Duas pequenas pessoas, sem aversão ou suspeita.

Compare isso com uma tradução mais literal da abertura de Li Bai:

> 妾发初覆额 (qiè fà chū fù é) — Meu cabelo primeiro cobriu minha testa > 折花门前剧 (zhé huā mén qián jù) — Quebrando flores, brincando diante do portão > 郎骑竹马来 (láng qí zhú mǎ lái) — Você veio montado em um cavalo de bambu > 绕床弄青梅 (rào chuáng nòng qīng méi) — Circundando o poço, brincando com ameixas verdes

A versão de Pound é mais solta que o original. "Stilts de bambu" para 竹马 (zhú mǎ, "cavalo de bambu" — um cavalo de brinquedo em forma de vara) está errado. "Ameixas azuis" para 青梅 (qīng méi, "ameixas verdes/imaturas") está errado. "Chōkan" é a pronúncia japonesa de 长干 (Cháng Gān), não...

Sobre o Autor

Especialista em Poesia \u2014 Tradutor e estudioso da poesia Tang e Song.

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